O tráfego aéreo ficou prejudicado em mais de 30 aeroportos nos Estados Unidos nesta terça-feira, 26 de agosto de 2008, por causa de uma falha de computadores, de acordo com a Administração Federal da Aviação nos Estados Unidos (FAA, em inglês). O problema, que levou a atrasos e cancelamentos de vôos, atingiu os computadores de uma instalação da FAA perto de Atlanta, no Estado da Geórgia, e agora todas as informações de vôos do país estão sendo processadas em Salt Lake City, em Utah.
O que houve?
O atual sistema usado no tráfego aéreo americano possui alguns gargalos que estão prejudicando o desenvolvimento e atualização do setor. O NAS – National Airspace System – é formado por diversos sub-sistemas integrados para a operação do tráfego aéreo com foco na segurança, comunicação e eficiência na distribuição e pontualidade dos vôos. Alguns destes sistemas foram criados há 20 anos e vem sendo “remendados” e atualizados ao longo dos anos. Essa atualização e manutenção tornaram-se excessivamente dispendiosa à FAA, fato que provoca a classificação do sistema como obsoleto por alguns técnicos.
Um destes sistemas, o NVS – National Airspace System Voice Switch, possui 17 diferentes tipos de “troca de voz” usado na comunicação entre o ATC (torre), aeroportos e pilotos, tornando-o operacionalmente complexo. Sendo sua manutenção dispendiosa e suportada por inúmeros contratos de manutenção e logística. Alguns dos equipamentos têm mais de 20 anos de uso. Outro exemplo é o SWIM (System Wide Information Management), responsável pela troca e transmissão de dados, que ainda tem cabos rígidos e arquitetura ponto-a-ponto.
O que aconteceu ontem foi o rompimento de um cabo ou uma falha de software (ainda não foi divulgado) na Geórgia. O plano B seria o processamento das informações em Utah. Contudo, o RVSM – Reduced Vertical System Management – ficou prejudicado para o lado leste dos EUA, este sistema reduz o afastamento seguro entre aeronaves para 2.000 pés através de um software de controle do espaço aéreo. Assim muito mais aeronaves podem transitar nos céus. Ocorre que com a perda do sistema o afastamento seguro aumentou, dependendo da região, de 5.000 à 10.000 pés. Ou seja, eles perderam metade das aerovias (estradas no céu) que eles utilizam engarrafando o tráfego aéreo com atrasos médios de 90 minutos. Em menos de um dia tudo estava resolvido ! No ano passado uma queda similar em Memphis ocasionou o mesmo engarrafamento.
Como o problema estrutural esta sendo resolvido, para isto não se repetir?
Estes problemas são conhecidos dos americanos que atualmente executam um enorme investimento em infra-estrutura para atualizar o sistema. O novo sistema chamado de NextGen, pretende atualizar a comunicação de voz por IP, substituir equipamentos analógicos por digitais, mudar a arquitetura de ponto-a-ponto para protocolo de Internet, navegação por satélite, enfim trazer eficiência e modernidade ao sistema.
Já em 2009, os aviões americanos terão o sistema FIS-B (Flight Deck via Flight Information Broadcasting) que leva à cabine do avião atualização on-line de informações meteorológicas. Em 2010 o NextGen levará aos aviões o sistema ADS-B (Automatic Dependent Surveillance Broadcasting) que permite reduzir o afastamento seguro entre aeronaves e melhorar o controle na região do Golfo do México. Mas o mais interessante será o TIS-B (Traffic Information Services Broadcasting), previsto para 2012, que leva ao cockpit do piloto informações de tráfego aéreo ao redor da aeronave. O piloto saberá detalhes sobre todos os aviões voando próximos à sua aeronave.
O sistema americano é seguro?
Todo este investimento em infra-estrutura está sendo feito pela previsão de que até 2025 o tráfego aéreo dobre nos EUA. Atualmente o sistema opera muito bem, receberam nota 91 (escala de 1 à 100) da ICAO no quesito segurança. Eles obtiveram 87% de pontualidade em todos os vôos de 2007 e 66% dos atrasos ocorreram devido a problemas meteorológicos. No caso do afastamento seguro de aeronaves há apenas 4 incidentes para cada 1 milhão de operações, e ocorre 0,1 acidente grave para cada 1 milhão de horas voadas.
Os EUA estão certificando tecnicamente – com um plano de treinamento – todos os seus 25.000 controladores aéreos. O programa está em execução, tendo iniciado em março e está previsto para acabar em outubro.
O planejamento e antecipação ao problema, o investimento em infra-estrutura e a solução imediata a qualquer falha no sistema são exemplos que o Brasil deve seguir.